Um estudo nacional canadense encontrou melhora em parte dos indicadores de escolaridade e emprego de pessoas autistas e com deficiências do desenvolvimento entre 2017 e 2022, mas mostrou que as barreiras continuaram profundas. Entre os participantes autistas, 60% relataram ter sofrido bullying durante a trajetória escolar. Em 2022, a taxa estimada de emprego foi de 29%.

O artigo foi publicado em 12 de setembro no Journal of Autism and Developmental Disorders. A equipe analisou duas edições da Pesquisa Canadense sobre Deficiência, conduzida pelo Statistics Canada, e comparou pessoas com deficiências do desenvolvimento, o subgrupo autista, pessoas com outras deficiências e pessoas sem deficiência.

Os resultados não autorizam dizer que uma política específica causou os avanços. As pesquisas de 2017 e 2022 observaram grupos diferentes em dois momentos, sem acompanhar as mesmas pessoas ao longo do tempo. Os próprios autores tratam as mudanças como tendências descritivas e alertam para possíveis efeitos da pandemia, de mudanças na identificação das condições e da forma de resposta ao levantamento.

Escolaridade melhorou, mas a desigualdade permaneceu

Entre as pessoas com deficiências do desenvolvimento, a proporção que não havia concluído o ensino médio caiu de 49% em 2017 para 33% em 2022. Essa diferença foi estatisticamente significativa. No subgrupo autista, o indicador passou de 53% para 39%, mas a variação não alcançou significância estatística — isto é, a amostra não permitiu afastar com segurança a possibilidade de flutuação aleatória.

O estudo também identificou obstáculos acumulados ao longo da educação. Mais da metade dos participantes com deficiências do desenvolvimento ou autismo relatou ter começado a escola mais tarde que colegas, frequentado programas de educação especial e cursado menos disciplinas. Planos educacionais individualizados, tecnologias assistivas, modificações curriculares e apoio humano apareceram entre os recursos necessários.

O dado sobre bullying merece atenção própria. A experiência foi relatada por 55% das pessoas com deficiências do desenvolvimento e por 60% das pessoas autistas. O levantamento registra a ocorrência ao longo da trajetória educacional; não informa que todos os episódios aconteceram no mesmo período, no mesmo nível de ensino ou sob as mesmas condições.

No trabalho, aumento não significou igualdade

A taxa estimada de emprego das pessoas autistas passou de 22% em 2017 para 29% em 2022. Entre pessoas com deficiências do desenvolvimento, foi de 27% para 30%. Nenhuma dessas mudanças foi estatisticamente significativa, e os níveis permaneceram muito abaixo do observado entre pessoas sem deficiência.

Em 2022, 60% das pessoas autistas estavam fora da força de trabalho e 11% estavam desempregadas. Essas categorias são diferentes: estar fora da força de trabalho inclui quem não estava trabalhando nem procurando emprego, enquanto o desemprego considera quem procurava trabalho. Misturá-las produziria uma leitura incorreta dos dados.

Quando adaptações eram necessárias, horários modificados, funções ajustadas e apoio humano estavam entre as medidas mais citadas. Entre participantes autistas, 43% mencionaram horários modificados, 42% relataram necessidade de funções diferentes ou adaptadas e 32% apontaram apoio humano. O estudo não afirma que essas porcentagens representem todas as pessoas autistas do Canadá; elas se referem ao recorte analisado sobre necessidades de acomodação.

O artigo também observa concentração do emprego em poucos setores. Varejo apareceu como o principal entre participantes autistas. Os autores alertam que o simples registro de estar empregado não mede renda, jornada, estabilidade, satisfação nem possibilidade de progressão profissional.

O que o estudo mede — e o que deixa de fora

A edição de 2022 da pesquisa foi realizada principalmente por questionários on-line e reuniu 54.081 respostas na amostra final não ponderada. Para produzir estimativas nacionais, os pesquisadores aplicaram pesos populacionais e mil réplicas estatísticas, além de vincular os dados ao Censo canadense de 2021.

O levantamento alcança pessoas com 15 anos ou mais cujas atividades diárias são limitadas por condições de longa duração. O grupo autista foi identificado por condições médicas autorrelatadas associadas ao código correspondente na Classificação Internacional de Doenças. Isso não equivale a uma avaliação clínica feita pela equipe de pesquisa.

Há exclusões importantes: a pesquisa não abrange pessoas que vivem em reservas das Primeiras Nações, instituições e moradias coletivas, integrantes das Forças Armadas nem pessoas sem moradia. Crianças com menos de 15 anos também ficaram fora. Esses limites podem ocultar experiências de grupos que enfrentam barreiras ainda maiores.

“Deficiências do desenvolvimento” é a categoria usada no estudo canadense. Ela não deve ser transportada automaticamente para o enquadramento jurídico brasileiro, que possui definições, políticas e critérios próprios. O autismo integra esse grupo na análise, mas também foi examinado separadamente.

Por que os achados interessam ao Brasil

Os percentuais canadenses não estimam a realidade brasileira. Ainda assim, o método oferece uma referência útil: medir apenas matrícula ou contratação não revela se a pessoa sofreu violência, recebeu apoio, conseguiu concluir etapas de ensino, teve condições de permanecer no emprego ou avançar profissionalmente.

No Brasil, a Lei Brasileira de Inclusão garante sistema educacional inclusivo, acesso ao trabalho em ambiente acessível e inclusivo, igualdade de oportunidades e adaptação razoável. Esses direitos não dependem de copiar políticas do Canadá nem surgem deste estudo. A comparação ajuda a formular perguntas para a avaliação das políticas nacionais: os apoios chegam antes da evasão? A escola enfrenta o bullying? A contratação se converte em permanência e carreira? As adaptações são definidas com participação da própria pessoa?

A principal consequência prática do trabalho é mostrar que avanços agregados podem coexistir com exclusões persistentes. A abertura formal de escolas e empregos precisa ser acompanhada por dados sobre qualidade da participação, barreiras, discriminação, apoios e resultados ao longo da vida.

Próximos passos da pesquisa

Os autores defendem coleta de dados mais abrangente, políticas de transição entre escola e vida adulta, formação profissional acessível e estratégias de emprego que considerem gênero, território, idioma e intensidade das barreiras. Também recomendam acompanhar qualidade do trabalho, e não somente presença ou ausência de vínculo.

Uma nova rodada da pesquisa canadense poderá indicar se as tendências continuaram depois de 2022. Até lá, a leitura responsável é dupla: houve melhora em alguns indicadores, mas não há base para atribuí-la a uma medida específica; e as diferenças de educação e trabalho continuam grandes o suficiente para exigir ação pública, adaptações individualizadas e escuta das pessoas diretamente afetadas.

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