A segunda edição do estudo Pessoas com deficiência e as desigualdades sociais no Brasil, divulgada pelo IBGE em 18 de setembro, reúne dados do Censo 2022, da Pesquisa de Informações Básicas Municipais e de bases do Inep, do TSE e do governo federal. O conjunto mostra que as barreiras se acumulam da escola ao trabalho, da calçada à participação política.

O Censo identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência com 2 anos ou mais, equivalentes a 7,3% dessa população. O estudo não trata o grupo como homogêneo: cruza tipo e grau de deficiência com idade, sexo, cor ou raça, território e composição familiar.

Trabalho e renda continuam marcados por grande distância

Em 2022, o nível de ocupação das pessoas com deficiência com 14 anos ou mais era de 29%, contra 55,8% entre pessoas sem deficiência. Para quem tinha dificuldade associada a limitações nas funções mentais, a proporção caía a 12,9%.

Entre as pessoas ocupadas, o rendimento médio mensal do trabalho era de R$ 2.053, enquanto pessoas sem deficiência recebiam R$ 2.890. A diferença equivale a cerca de 29%. Pessoas com deficiência ocupavam apenas 2,5% dos cargos gerenciais identificados pelo Censo.

O cuidado também afeta a inserção econômica de familiares. Entre mulheres de 15 a 59 anos que viviam com crianças com deficiência, o nível de ocupação era de 43,1%; para mulheres em domicílios com crianças sem deficiência, chegava a 55,2%. Entre os homens, a diferença praticamente desaparecia.

A desigualdade educacional aparece já entre os jovens

A taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 a 29 anos com deficiência era de 12,2%, ante 1% entre jovens sem deficiência. Entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos com deficiência profunda, 82,3% frequentavam a escola; entre pessoas sem deficiência, eram 98,4%.

Dados do Censo Escolar mostram que, em 2025, 78,5% das escolas de educação básica tinham ao menos um recurso de acessibilidade. O detalhamento, porém, revela lacunas: 57% possuíam banheiro acessível, 30% sala de recursos multifuncionais para atendimento educacional especializado e 26,2% profissional de apoio para estudantes com deficiência.

A cidade ainda impõe obstáculos cotidianos

Entre as pessoas com deficiência que viviam em áreas urbanas, 67,4% residiam em locais com obstáculos nas calçadas. Apenas 12,9% tinham rampas para cadeirantes no entorno da moradia. Nas favelas e comunidades urbanas, 56,6% contavam simultaneamente com abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo, abaixo dos 60,2% observados entre pessoas sem deficiência.

A desigualdade também é digital: 78,9% das pessoas com deficiência tinham internet no domicílio, ante 90,2% das pessoas sem deficiência. A diferença afeta educação, trabalho, acesso a serviços públicos e participação social.

Família, pobreza e participação política

Em 2022, 30,1% das crianças e adolescentes com deficiência viviam somente com a mãe ou madrasta, sem pai ou padrasto no domicílio. Entre crianças e adolescentes sem deficiência, eram 21,5%. Nos lares abaixo da linha de pobreza, a proporção chegava a 35,1%.

Na política, o número de vereadores com deficiência eleitos caiu de 522 em 2020 para 391 em 2024. Entre prefeitos, passou de 56 para 24. A queda não prova, isoladamente, uma causa específica, mas confirma uma representação muito pequena diante do tamanho da população.

O que os dados pedem das políticas públicas

Os indicadores não sustentam uma resposta única. Eles apontam para a necessidade de políticas articuladas: permanência escolar com apoio adequado, acessibilidade urbana e digital, combate à discriminação no trabalho, suporte às famílias cuidadoras e participação direta das pessoas com deficiência nas decisões.

Também é preciso respeitar os limites metodológicos. O Censo investiga dificuldades funcionais específicas e não produz estimativas separadas para todas as condições neurodivergentes. Pessoas autistas ou com outras condições do neurodesenvolvimento podem aparecer nos dados quando atendem aos critérios pesquisados, mas não se deve usar o total como se fosse um retrato de toda a neurodiversidade.

O valor do estudo está justamente em mostrar que deficiência e desigualdade não são temas periféricos. Elas atravessam educação, renda, mobilidade, cuidado, moradia, tecnologia e democracia — e exigem metas mensuráveis em cada uma dessas áreas.

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