Famílias de crianças autistas do Jardim Bassoli, em Campinas, estão participando da elaboração de um novo espaço público inclusivo. As contribuições foram colhidas durante encontro do grupo de pais realizado na sexta-feira, 28 de agosto, e deverão orientar o projeto do Parquinho Inclusivo e Intergeracional do Bassoli.

A iniciativa reúne sete secretarias municipais e pretende criar uma área de convivência para crianças, adultos e pessoas idosas. O aspecto mais relevante, porém, está no modo como o projeto vem sendo construído: as famílias foram chamadas a indicar barreiras, necessidades e soluções antes da definição final do espaço.

Escuta das famílias transforma experiência em planejamento

A participação das famílias permite incorporar ao planejamento conhecimentos produzidos na vida cotidiana. Mães, pais e cuidadores costumam identificar com precisão situações que podem gerar sobrecarga, desorganização ou risco, além das condições que favorecem brincadeira, autonomia e convivência.

Entre as propostas divulgadas está a criação de ambientes fechados e tranquilos, nos quais a criança possa se acalmar com segurança e privacidade diante de uma crise ou de sobrecarga sensorial. Esse tipo de solução amplia a compreensão tradicional de acessibilidade: não basta permitir a entrada no parque; é preciso criar condições para que diferentes pessoas consigam permanecer, brincar e participar.

Um parque inclusivo não se resume aos brinquedos

Brinquedos acessíveis são importantes, mas representam apenas uma parte do desenho inclusivo. Rotas amplas e contínuas, pisos adequados, cercamento seguro, sinalização compreensível, sombras, bancos, áreas de pausa e organização previsível do ambiente também influenciam a experiência das crianças e de suas famílias.

As necessidades não são iguais para todas as pessoas autistas. Algumas crianças buscam movimento e estímulos intensos; outras podem apresentar maior sensibilidade a ruídos, luzes, aglomerações ou mudanças inesperadas. O planejamento precisa combinar possibilidades de exploração com espaços de menor estimulação, sem isolar ou estigmatizar usuários.

Convivência intergeracional amplia o alcance da iniciativa

A proposta de um parque intergeracional evita que o espaço seja pensado como equipamento exclusivo para um único grupo. Crianças com e sem deficiência, familiares, pessoas idosas e moradores do bairro poderão compartilhar a mesma área, com recursos que atendam diferentes condições de mobilidade, comunicação e participação.

Esse desenho pode fortalecer vínculos comunitários e reduzir a segregação. A inclusão ganha maior consistência quando os recursos de acessibilidade fazem parte do ambiente comum e não aparecem como estrutura periférica ou separada.

Projeto participativo ainda precisa se converter em entrega

A escuta das famílias é um avanço importante, mas o parque ainda está em fase de construção participativa. A efetividade da iniciativa dependerá de como as contribuições serão incorporadas ao projeto executivo, dos recursos destinados à obra, da manutenção permanente e da avaliação do espaço após sua utilização.

Também será importante que a participação não se encerre na reunião inicial. Apresentar às famílias as soluções adotadas, explicar eventuais limitações e permitir novos ajustes ajuda a transformar consulta pública em processo real de codesenho e prestação de contas.

A experiência de Campinas oferece uma referência para outros municípios: políticas inclusivas tendem a produzir resultados mais adequados quando as pessoas diretamente afetadas participam desde o planejamento, e não apenas depois que decisões e estruturas já estão prontas.